Intervenções psicossociais: serão suficientemente específicas?
As intervenções psicossociais têm vindo a ser estudadas exaustivamente no campo da demência. Algumas intervenções são reconhecidas por agirem sobre as funções cognitivas, outras sobre os processos emocionais, e assim por diante. Todas elas aspiram melhorar a qualidade de vida das pessoas com demência.
As abordagens dos cuidados na demência são muitas vezes baseadas em modalidades de psicologia positiva e visam evitar processos malignos de psicologia dos cuidadores, como definido por Tom Kitwood.
A introdução de uma abordagem específica neste campo tem levado os cuidadores, os investigadores, e os profissionais a repensarem uma forma de processamento para essas pessoas, ou seja, a considerarem e interagirem com eles de outra maneira. A introdução de uma abordagem específica para uma questão subestimada é uma maneira de obter a atenção dos pares. Como o modelo dominante de prestação de cuidados nas nossas sociedades é a abordagem médica, as pessoas com demência, infelizmente, são herdeiras de uma abordagem que as considera doentes, incapazes de decidir e, por vezes, debilitadas... por outro lado, não seria justo considerar apenas os maus resultados da abordagem médica, sabendo tudo o que tem sido feito no sentido de um melhor conhecimento dos antecedentes biológicos e do diagnóstico de pessoas com demência e de todos os esforços que são desenvolvidos a fim de encontrar um tratamento.
Não nos podemos esquecer de que os processos biológicos subjacentes (novelos neurofibrilares e placas senis, devido ao excesso da proteína tau e beta-amilóide no cérebro) encontrados na demência também são encontrados em qualquer pessoa que envelhece, apenas em maior quantidade - é isso que os torna patológicos de acordo com a distribuição de Gauss.
Viver com uma diferença (em relação à maioria) é uma condição que não é fácil na nossa sociedade e com a qual é difícil de lidar. Sejamos frontais! Algumas pessoas têm uma cor de pele diferente em comparação com a maioria das pessoas no seu país, algumas pessoas têm diferentes orientações sexuais, algumas pessoas têm deficiências motoras, algumas pessoas não podem ouvir e outras não podem ver, algumas pessoas têm cancro, algumas pessoas são muito gordas e outras muito magras. Tal como todas estas diferenças, a demência é uma questão de lotaria biológica e circunstancial, mas apesar de tudo, as pessoas com demência não deixam de ser Pessoas. As pessoas que vivem com demência, independentemente das circunstâncias, devem poder, então, expressar-se sobre a sua condição, a fim de serem aceites como são e falarem por si próprias ao invés de terem outras pessoas a falarem por elas. Consegue imaginar uma conferência sobre a homossexualidade com oradores heterossexuais a falar sobre o que os homossexuais gostam, como são, e como pensam? Esses oradores provavelmente teriam à sua espera, fora da sala de conferências, uma multidão de pessoas enraivecidas, e é compreensível. É comum ouvir coisas deste género em conferências sobre a demência ou mesmo em visitas a unidades de cuidados especiais (por exemplo, "Oh, é claro que eles [pessoas com demência] gostam de mexer em coisas nos armários e de vaguear em círculos!"). Eu próprio o disse em várias ocasiões, não com má intenção, mas certamente esquecendo o meu propósito de investigação e de luta.
Conhecer pessoas com demência no decorrer da minha experiência profissional e ouvi-las falar em eventos sociais e conferências sobre a sua condição fez-me perceber como nós (oradores) podemos parecer, aos seus olhos, impessoais, demasiado técnicos e de alguma forma impertinentes. Estamos a falar da vida de pessoas que lidam diariamente com os desafios da sua condição de doentes de Alzheimer e não a tratar de um fungo velho na planta dos pés. É importante que as pessoas com demência sejam representantes da sua própria causa, enquanto o possam fazer, e a nós, resta-nos defender as necessidades das pessoas com demência que já não se podem expressar. Então talvez esteja na hora de admitirmos que falamos apenas [enquanto oradores, investigadores, profissionais] sobre algo que julgamos que as pessoas com demência apreciariam e que às vezes "específico" não o é muito.
A questão que permanece é a particularidade de todas estas abordagens para o cuidado na demência. Será todas têm sido estudadas com a demência como propósito ou serão simplesmente o resultados do senso comum (por exemplo, relembrar acontecimentos da vida muitas vezes pode tornar-se emocional, as atividades da vida quotidiana é o que todos nós fazemos todos os dias, palavras cruzadas e Sudoku requerem processos semelhantes aos encontrados na terapia cognitiva, planear uma unidade de prestação de cuidados requer o conhecimento sobre como todas as pessoas vivem…)? E até que ponto o senso comum pode servir a causa da demência?








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